GRAMATICALIZAÇÃO


 




Gramaticalização e Paradigmas Linguísticos: Uma Abordagem Teórica e Histórica

1. Introdução

A linguagem é um dos elementos fundamentais da comunicação humana e sua estrutura evolui ao longo da história. A gramaticalização, conforme proposta por Sylvain Auroux, é um processo histórico e cultural pelo qual uma língua passa a ser sistematicamente estudada, codificada e normatizada. Esse fenômeno ocorre quando uma língua se torna objeto de reflexão científica, originando gramáticas, dicionários e normas linguísticas que influenciam sua estrutura e uso.

A gramaticalização desempenha um papel crucial na definição da norma culta e da norma padrão, que moldam a forma como uma sociedade concebe a língua "correta". Entretanto, esse processo também levanta questões sociolinguísticas, pois nem todas as variantes recebem o mesmo reconhecimento. Dialetos, variedades regionais e formas populares muitas vezes são marginalizados, reforçando percepções de erro ou inadequação linguística.

O estudo da gramaticalização exige um olhar sobre os paradigmas linguísticos que coexistem no campo da análise da língua. O paradigma tradicional, gerativo e funcionalista oferecem visões distintas sobre o fenômeno da linguagem. Este artigo explora como a gramaticalização se relaciona com esses paradigmas, seus impactos na norma linguística e sua influência nas políticas educacionais e sociais.


2. A Gramaticalização e seus Impactos Sociolinguísticos

A gramaticalização não ocorre de maneira neutra, pois estabelece padrões de correção e padronização que impactam diretamente no ensino e na comunicação. Auroux sugere que esse processo reflete não apenas a organização da língua, mas também a influência social e política sobre seu uso.

2.1. Formação de Normas

A institucionalização da gramática transforma certos usos linguísticos em padrões aceitos. A norma culta e a norma padrão emergem como referências essenciais para a padronização da língua, sendo frequentemente adotadas em contextos formais.

Norma culta

A norma culta é promovida como modelo de prestígio linguístico, geralmente associada a contextos acadêmicos e à escrita formal. Seu reconhecimento ocorre principalmente em ambientes educacionais e na mídia.

Norma padrão

A norma padrão, por sua vez, é utilizada como referência oficial em documentos institucionais, leis e manuais didáticos. A gramaticalização estabelece uma relação entre essas normas e a forma como a sociedade interpreta o "uso correto" da língua.

2.2. Marginalização de Variantes Linguísticas

O impacto sociolinguístico da gramaticalização está na hierarquização das variantes linguísticas. Dialetos e registros informais frequentemente são vistos como inferiores ou inadequados, refletindo desigualdades sociais.


3. Paradigma Tradicional de Gramaticalização

O paradigma tradicional tem suas raízes na visão normativa e prescritiva da língua. Desde os primeiros estudos do latim e do grego, esse modelo foi predominante na sistematização das línguas.

3.1. Características do Paradigma Tradicional

  • Objeto de estudo: A norma-padrão, com foco na definição de regras e na correção de desvios linguísticos.
  • Conceito de língua: Sistema homogêneo e estático, desvinculado das práticas dos falantes.
  • Unidade de análise: Frase ou oração, com ênfase na estrutura sintática.
  • Metodologia: Prescritiva e normativa, baseada em regras fixas.
  • Norma: Norma-padrão escrita, idealizada e homogênea.
  • Língua gramaticalizada: Português europeu clássico, com pouca consideração às variações do português brasileiro.

Esse paradigma, apesar de sua influência na educação e na construção de gramáticas, tem sido criticado por ignorar a dinamicidade da língua e por não contemplar a variação linguística.


4. Paradigma Gerativo

O paradigma gerativo, proposto por Noam Chomsky, busca explicar a competência linguística dos falantes. Ele se concentra na análise da estrutura profunda da língua e na geração de frases corretas segundo regras universais.

4.1. Características do Paradigma Gerativo

  • Objeto de estudo: Estrutura profunda da língua e capacidade de gerar frases corretas.
  • Conceito de língua: Sistema formal baseado em regras universais.
  • Unidade de análise: Sentença, analisada em estrutura profunda e superfície.
  • Metodologia: Dedutiva e introspectiva, baseada em formalizações matemáticas.
  • Norma: A norma padrão não é foco de estudo; a ênfase está nas regras universais.
  • Língua gramaticalizada: Modelo idealizado da língua, sem considerar variações sociais ou regionais.

Embora esse paradigma revolucione a análise linguística, ele é criticado por não levar em conta aspectos pragmáticos e interacionais da comunicação.


5. Paradigma Funcionalista

O paradigma funcionalista surgiu como alternativa ao estruturalismo e ao gerativismo, enfatizando o uso da língua como prática social e comunicativa.

5.1. Características do Paradigma Funcionalista

  • Objeto de estudo: Uso real da língua em interação comunicativa.
  • Conceito de língua: Sistema dinâmico e funcional, adaptado às necessidades comunicativas.
  • Unidade de análise: Texto e discurso, considerando o contexto e a intenção comunicativa.
  • Metodologia: Indutiva e empírica, baseada em observação de dados reais.
  • Norma: Reconhece a variação linguística e legitima diferentes normas.
  • Língua gramaticalizada: Português brasileiro contemporâneo, considerando suas variações regionais.

Esse paradigma rompe com abordagens prescritivas, permitindo uma visão mais ampla do funcionamento da língua.


6. Relações entre os Paradigmas

A coexistência de paradigmas demonstra como a linguística evoluiu ao longo do tempo.

6.1. Comparações entre os Paradigmas

  1. Paradigma tradicional e gerativo: Ambos idealizam a língua, mas o primeiro prescreve normas enquanto o segundo busca regras universais.
  2. Paradigma funcionalista versus tradicional e gerativo: O funcionalismo destaca a interação e uso real da língua, enquanto os outros paradigmas focam na estrutura normativa.

Os paradigmas diferem na forma como concebem a língua e seu uso. Enquanto o tradicional se preocupa com regras e correção, o gerativo busca um modelo abstrato e o funcionalista observa o uso comunicativo.


7. Conclusão

A gramaticalização é um processo essencial na evolução das línguas e na criação de normas que impactam o ensino e a percepção social da linguagem. Embora contribua para a padronização, também reforça hierarquias sociolinguísticas. A coexistência de paradigmas permite uma visão mais ampla sobre a língua, reconhecendo tanto sua estrutura formal quanto seu uso real.

Lydia Dircsheneider 

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